5.1.10

às vezes no amor

eu me sinto assim

meu nome é gal

completo 26 anos daqui uma semana

4.1.10

ah se as palavras nos deslocassem

é preciso preservar o sim?

3.1.10

os homens nasciam e se enchiam de coisas, eu só conseguia falar se não fizesse sentido com o que havia sido dito imediatamente antes.

meu corpo era inteiro ele, uma ladainha só.

fui fazer vácuo na banheira, o pato me comeu, ladrão! ladrão.

tinha uma espécie de fuga na solidão do texto. eu tinha uma espécie de crença na maleabilidade das palavras num texto, não me importava com as idéias. de repente: crise!!!!!! crise!!!! conteúdo.

#


31.12.09

retrospectiva

quando eu for escritora, uma coisa que eu gostava de fazer, além de ganhar o Nobel, é escrever crônicas. é um gênero cabisbaixo, sabem vocês, cabe o maleável achar de velha, escreveria crônicas épicas, denunciando a política, e quando me cansasse com as bixigas d'água dos sobrinhos contaria como eu também um dia já acordei fumando droga e passei assim, semanas, até aprender a escrever, mas que não, escrever não é salvação nenhuma, a única salvação possível é a vida.

#

além de que um jornal poderia pagar por isso, bom seriam os dias temáticos. mas mantendo algum lirismo juvenil escreveria, por exemplo, no 31 de dezembro, pela habilitação do último dia do ano como um dia em si importante e não mais NUNCA MAIS um dia de véspera.

etc.

enquanto isso não acontece,



quem não dançar assim em 2010 tá com nada, não

#

passei o ano-novo de 2009 para 2010 em angra dos reis, era um baile de máscaras. teve show do latino (!) e, antes disso, a virada do ano. estava longe de todos meus conhecidos na contagem regressiva, fui pra perto de um cais, e, num impulso, no 3, 2, 1 FELIZ ANO-NOVO tirei a máscara que estava no meu rosto e foi como se tirasse um véu, de que 2009 poderia ser como quisesse. sempre é, afinal. chorei no gesto, também porque o poeta é um fingidor, porque cargas d'água tava eu tirando máscara?

daí no dia 4 escrevi isso

reveillon ou poética para um artista do fracasso

Sei que posso ser salsugem na margem de outro
ou rabugem em mim que isso lá é mentira de poeta
então estalo os dedos,
por favor, anjo surdo
traga-me outra fumaça
me dê outra maneira
de fúria, adivinhação e máscara
quem sabe pintura, esgrima?
carruagem ou esquadro
ou tipo um jogo de tirar palavras
num amigo-secreto
quem perder primeiro o dadáme
a roupa que me ganha
num estouro de borbulhante
de primeiro do ano beba, babe
na boca, mergulho no mar
feito um gargalo de garrafa
se abrindo o peito enquanto engulo
toda a sua vaga, enamorado.


#

splash!


daí teve meu aniversário, a gente adora símbalo, fez baile de máscaras!



isso dia 12.

ganhei os presentes mais legais, incluindo um lápis peludo de oncinha.

#

depois teve um ano todinho.

#

agora chega, tenho que ir comprar camarão pra moqueca de hoje à noite.

de 2010 tenho medo e vontade. um ano que por um lado é o dobro, e por outro, metade. deve ser bom.

pra todos nós, cheers! & amor que venga!

28.12.09

te dou

estive perto das ondas o dia todo
não sabia delas se voltava
a mim me partia
como um cavalo sitiada

escolhi, espero
tudo o que é vago
pra começar em aberto
um iate, ateliê, morango

pro ano que vem/ tudo, tudo quero.

cem sugestões para o inverno

sugar o sol
sardas, céu

27.12.09

sonhei que eu estava numa casa, com o meu pai, a gente entrava nela porque eu pensava que era a casa que aparecia em todos os meus sonhos e onde tinha um alçapão lá no alto do alto onde era o meu inconsciente e então daí eu morria de medo. a porta de entrada nem abria nem fechava direito, pegava no piso e fazia nhhhhaaaam. lá dentro tudo parecia ser de alguém que era um ninguém. as casas sem personalidades das pessoas, a minha, não. e tinham cachorros. todos os cachorros do mundo que eu já tive estavam morando lá dentro, como uma espécie de canil ou asilo, uns 15 cachorros. quantos cachorros eu tive desde que nasci? estavam todos lá. e eu ia entrando e subindo pela casa (sobrado, uns 4, 5 andares) reconhecendo que aquela casa era de alguém e que talvez eu não devesse estar lá, mas algo me impelia em acreditar que talvez eu encontrasse a chave, como naquele poema do Drummond "trouxeste a chave?" e ia subindo as escadas. meu pai bem me incentivava daquele jeito dele inseguro, que sabe também que não deveríamos lá estar, mas segura a negativa, ou se lança em por que não?, e quando chegamos lá no alto tinha uma vista linda, vista essa que sempre tem o meu inconsciente, é uma vista pros Jardins como se olhasse do Jockey Club e apagasse a Marginal Pinheiros. é um lugar que não sei se já vi, já estive, mas o sonho aumenta as formas. mas eu fechei a janela, não queria ver SP. então lá do alto ouvímos que alguém abriu a porta nhhaaaam, desci preocupada tentando falar, mas minha voz não saía. até que eu disse "com licença", dentro de mim eu não conseguia falar isso, daí disse "estamos aqui!" e minha voz saiu, enfim, rouca. a 2a coisa que eu disse foi "estou rouca" e ri falsamente, para quem estava ali, a cunhada da minha cunhada, alguém assim? que nem sei quem é, mas a gente sorri. daí percebi que era dela a obrigação de ir cuidar dos cachorros. sentei no sofá como se nada estivesse acontecendo (e nada estavva, mesmo) e usei a técnica dos que amam os bichos e os entendem e os usam, enfiei a cabeça na frô, a minha cachorra querida, enquanto ela me lambia e eu apertava a cabeça dela. como que pensando, ah cachorros sim sabem ser tontos. e disse pro meu pai "quando eu morar em Lisboa vou ter um cachorro", meu pai riu "sim, vai ter sim" e eu acordei, onde estou onde estou? em Lisboa, não tenho cachorro.

26.12.09

revendo a chuva me arrecordo



se a safra não atrapalhar meus planos



23.12.09

quando 2010 chegar

ele bate na porta
eu GRITO
ele abre a janela
eu fecho a CORTINA
ele rasga a cortina
eu beijo ele na BOCA!!!

22.12.09

tradução espontânea

não bate mais
a poesia, a droga, o amor
deve ser
deve ser o inverno
deve ser capricórnio
deve ser o fim
deve ser o fim

mentiram pra você
depois não tem começo
mentiram pra nós
depois não tem começo
mentiram pro jejum
depois não tem começo
mentiram pra minha barriga
depois não tem começo
oh yeah
mentiram pra mentira

baila, baila, baila
é quase janeiro
as coisas já não te atingem
as coisas já não
as coisas

caetano veloso ou arnaldo antunes já utilizaram essa forma de as coisas as coisas têm as coisas têm peso as coisas têm peso massa e volume

uma talvez júlia não tem nada com isso.



ou talvez entregar tanto
hoje de manhã quando acordei do trem
chorei chorei de amor
chorei chorei
até não ter dó de mim
semana passada dormi 4 horas por noite
todos os dias
todos os dias
até encontrar o reset das formas
e de ontem pra hoje das 20h às 9h
encontrei as formas tão arredondadas de prazer
a simples dormência de tudo
Lisboa é como o Caribe
gostar de você é como da luz
gostar é gostar não tem nada mais
nada menos
com você me sinto bem
oh you pretty things
vera me diz que amor é paciência e vice-versa
leio o wisnik o nancy
não quero ninguém
não quero ninguém
hoje não tem fernando pessoa
hoje tem TODO MUNDO

todo mundo a gente vai dar uma FESTA FESTA FESTA

duas três quatro FESTAS FESTAS FESTAS

eu ainda não sei em que festa vou porque estou em todas
eu sou a voz do universo, vocÊ ainda não percebeu?

faço assim: uuuuuuuuuuuu
e não estou no estrangeiro, ou no superior. estou no centro do liquidificador.

escrevo aqui só pra não ter que abrir o caderno. o caderno me deixa metafísica. daqui eu desbanco tudo, do alto desse blogue muro é você

muro é você que me lê e acha que sabe do que eu estou falando.

todo muro é cheio de propriedade.

vamos dançar a propriedade das coisas?

do lado de lá ficam os filósofos. do de cá os poetas pendurados em cachos de bananas.
eu estou no centro. eu não cedo o sentido. eu invento. eu não tenho nenhum compromisso com você nem com a tradição. mesmo a paranóia, eu larguei pra ela que ainda faz análise. mesmo a paranóia, veja bem, alucinação, MESMO A PARANÓIA é pro ano passado.

2010!!! o primeiro ano da década. o último ano da década. 2010. 2010.
metade prum lado e dobro pro outro! tou do lado dos dobros e das metades.

sou como uma camisa engomada.
um homem passou com a mesma camisa que você.
você me pergunta "ele era tão lindo como a camisa?"
"só a tua boca".
digo "alto."
digo ALTO.

ALTO.

meus padrões são des-educados. eu sei. cresci com um cacho de bananas e faço questão de lembrar que sou amável, amadora, amante, amiga, rasante.

sou um back.
back and forward.
nem vem que eu sou hetero. nem bem sou homem.
tou pra lá da negritude.
sou um talude.
que quer dizer talude?

n substantivo masculino
1 inclinação na superfície lateral de um aterro, de um muro ou de qualquer obra; rampa
2 terreno em declive; escarpa
3 Rubrica: construção.
posição de acomodação de um terreno após sua terraplenagem
4 Rubrica: artes gráficas.
m.q. rebarba ('espaço')
5 Rubrica: artes gráficas.
cada uma das minúsculas paredes laterais nas cavidades de um clichê de fotogravura
6 Rubrica: topografia.
grau de clivo em que se encontra um terreno, um monte etc.; rampa, escarpa


tu gostavas (?)
NÃO SEI USASR ESSA LÍNGUA ALGUÉM POR FAVOR ME CONCEDA UMA OUTRA


é como gostar da luz

sardas, boca, sugar
o sol.

15.12.09



faça por ele/ como se fosse por mim
tem outras coisas que eu só poderia dizer
se beijasse e encaixasse a palavra no cheiro.

quietinha.

enquanto eu ficava só te vendo
entrou um senhor e me deu uma pulseira
e disse que promete saúde, sorte no trabalho e marido

vou trocar o lado dela e vai me dar palavra no teu pescoço?

13.12.09

tou na pós-

que a teoria não me endureça
que a teoria não me plasme muito
vamos de mãos dadas.

todos os minutos

(estou sempre desesperada de dúvida lá no fundo)

12.12.09

todo dia de madrugada na cama escrevo um poema
mas tão frio que está não consigo me levantar
a noite descarrilha a seqüência toda
de ontem só me lembro

você é um homem
ao qual nunca sobrevivi

sempre amanhece,

e que tinha uma imagem de pedras cristalinas que voassem como peras nuns ramos.

11.12.09

amor

9.12.09

navegar é preciso

procuro o nome do meu pai no google // googlo depois a minha mãe // quando ponho os dois juntos é quase nada // ... // se eu perdesse a memória e dependesse do google não descobria-os como um casal // percebo: de nada saberia deles juntos // reparo: muito menos saberia que se tratam dos meus pais!

portugal radical

estava eu no metro entraram duas professoras com um grupo de uns 16 alunos
os miúdos de 5 anos todos vestidos com calças azuis e agasalhos vermelhos
todos enfileirados de par em par sempre menino dando mão pra menina
sentaram-se cada 4 em duas cadeiras e é aquela festaria de criança né
todos calados quietinhos e mirando e o mundo uns riem de nada
outros prestam atenção e abrem a boca pro se calar profundo
um bando de malucos delícia crescendo pra todo lado



entra na outra ponta do vagão (que aqui é carruagem)
o cego da sanfona do metro (que aqui é acordeão)
em quem eu já pensava como toda uma instituição
(desconfio que o cego da sanfona tb tem um filho da sanfona só que não cego)

a professora então se põe a explicar o cego
o ceguinho a tocar a música e damos as moedinhas

pegou correndo a bolsa da outra professora
eu, que já havia cedido meu lugar pros miúdos
dei passagem ao cego no corredor
ele me disse muito obrigado

a outra com a bolsa uma moeda e disse pra criançada
agora a moedinha vai prali
e despejou no cofrinho de couro do ceguinho


o sorriso dos miúdos fascinados

tlim tlim.

8.12.09

02:57 eu: papai
taí?
papai
taí?
tava indo dormir te vi
aconteceu uma coisa engraçada comigo dia desses
02:59 eu tava aqui de repente me senti no brasil
me senti tremendamente no brasil, era fim de tarde
foi uma coisa impressionante
daí a música acabou
e era uma música argentina
trocou a música
e eu percebi q o q me fazia me sentir no brasil era a música
isso pq a música tinha gravado um bem te vi q se repetia
03:00 daí percebi q aqui não tem bem-te-vi
mas já são 3h da manhã aqui
eu vou dormir
03:01 beijos.
<3 saudades
ontem a gente foi na junta de freguesia ganhamos formulário carregamos telemóvel hiato íntimo fomos pra conferência que não existia depois existia depois tinha cadeira que pegar a luz azul era um lynch o guarda olhou assim O.O não vão ficar por que está cheio? daí vimos um carrão de velório e ficamos em dúvida se a redinha na janela era de verdade ou pintada (que era outro modo de ser verdade, só pensei agora) como se vê era de verdade veludão verde e o carro tinha uns trilhos fomos atrás do velório deve ser rico entramos na igreja quase que pela sacristia tinham folhas de árvore em toda parte eu tava angustiada a gente colocou os pés dentro e saltamos de lá pra internet tinha dois emails e o horário do cinema daí a gente desistiu e foi pegar o metrô daí a gente desistiu de novo e voltamos a pé pra queimar a minha angústia e o carvão vegetal dele daí chegamos em casa e hiato íntimo e convidaram prum café então a gente foi e não achou o estádio até que foram nos socorrer no miradouro e finalmente chegamos ao estádio e lá viraram cervejas e de lá descemos até o bairro onde encontramos uma promessa de concerto eu ri muito ele ficou bravo fomos até lá embaixo e eram uns punks de pantufas eu pulei um monte feito escorregasse no escorregador e então a lua estava pela metade alguém disse que já não sentia tanto tesão assim descobri que fresca e ficar nem sempre significam a mesma coisa e nem sei muito mais da vida a não ser quanta alegria vim sentindo tão elétrica demorei umas horas pra dormir e hoje cedo ai que dor nas costas.

por horas

você vai embora meus ouvidos ficam mastigando sua voz

7.12.09

lembrei quando eu te ligava e ainda não sabia o número de cor e só de abrir a página meu coração disputava entre tantos dígitos mas como a coragem caminha ou destrói o desejo e por entre nós sempre foi larga a rua você nunca sabia quem era quando atendia e também ficava louco por sem ter também tinha enfrentado aquelas hesitações e finalmente se sentia sem elas é tão mais fácil. depois foi um telefonema também, a última coisa que houve. mas a vida fluída, tão longa. a coluna vertebral do tempo é um fóssil vivo no fundo do oceano. queria me derrarmar nele pra fora das encostas colunares das agendas. entender que não tem data de validade. parece que vou mergulhar até encontrar o nunca-aparece a última coisa. hoje não ligo, não.

6.12.09

tão feliz quanto dispersa

o escorregador era um muro que eu subia as escadinhas e lá em cima o muro acabava estalava enquanto descia o metal tão longo e quando chegava na areia parecia que nada tinha acontecido mas o coração arfava

ainda tem lá aquelas mangueiras plantadas em quadrados
anos depois que fui lembrava dos bancos de cimento que espetavam
o pacotinho de mupy de maracujá ou maçã
o escorregador ainda era grande mas não cabia a minha bunda
mas bem que eu tentei porque não sinto vergonha dessas coisas
antes acho mesmo é de rir da cara de quem acha ridículo uma mulher usar um escorregador
de criança só consegui lembrar que o everton e o wellington comiam a bruna com 11 anos

na arquibancada
a menina feito um frango
os pintinhos deles


só o vai--e--vem
na linha do horizonte

era uma forma de ser amiga, a dela.
jogávamos bola juntas.
nosso cabelo tinha a mesma cor.
alguém perguntou se éramos irmãs.

o professor fumava maconha com os meninos do 3o colegial na saída de incêndio do prédio novo.
na aula tive que fazer uma reportagem contra o crack. lembro dos microscópios e que tinha um feto de cavalo no formol. a juliana não comentava mas via naquilo uma indecência.

eu sempre fui branca como uma tripa.

minha ingenuidade também era de tripa.


o marcos sempre fala
que não é fácil
ter 12 (ou 8?) metros de tripa dentro da gente.

tripa com memória
é ser pipa.

confundo

abro o caderno
achando o livro
misturo carvão
vago pelo fogo

a escrita sabe um pouco como o amor
não se sabe quem se possui a quem.

amor

não fugia
que voava

sala

onde ainda se acredita na diferença de um poema

sou eu

domingo
a louça é maior
há quanto tempo a louça me apavora
depois descubro que tem água quente
e que quente a água a louçar
é domingo ao menos



volto ao acordar
escrever



escrever: quanto mais ao menos.



um dia vou escrever assim:











com ponto final.

4.12.09

é pegar ou largar
you are cesariny
portugal is burning
cazuza generation

1.12.09

today is gonna be the day



o mar que me caminha

30.11.09

o creme é mais amarelo

no tempo que não havia tempo eu não esperava, adentrava. depois que os anos começaram a passar depressa um mês, dois, três, nada. em certa altura não sei se eu conquisto o tempo como um avançador marinheiro num azul noturno guiada por sei lá qual estrela ou se é o tempo que me vence como a barriga do seu dragão. no caso da estrela, ela me dá sorte, quer dizer, luz que sorteia.




escrever e pensar: o caminho que é livrar-me numa nova estrutura.



sonho em Portugal é bola de Berlim.

24.11.09

o livro do ano



ham-ham
pelo menos do meu ano, o livro
agora dá pra baixar em pdf o

cantos de estima
full edition sem cortes e remasterizado
clica aqui e mergulha

vento

qual o teu terror?
conta de me levar
se abro a janela.

23.11.09

carinho



agora, no 12 exemplares pode-se ver a maior parte das respostas dos participantes do projeto.
logo serão todas.

**

acho que é
intuição

metade de mim sempre já sabe das coisas antes
e a outra metade é crítica demais pra aceitar que já sabe
ou fica lá dizendo tá vendo tá vendo tá vendo
mas a metade que já sabe tem mais calma e ternura
pode até se dispor a humildade de não saber
mas a parte crítica também salva a que acha-que-sabe
de cair nos crocodilos e de voar com as borboletas
(borboletas morrem em três dias)
e é na reiteração de uma sobre a outra que vivo
ou na sombra de uma alegria guerreira
que cresce feito árvore

agora o que se vê é a copa no outono
mas está é mesmo crescendo raízes pro fundo
(lá é úmido e tem mais minerais)
daí às vezes sobem coisas pelos veios
(são os arrotos das árvores)
que brotam maçãzinhas pêras amoras
depende do desejo

**

intuição acho que é
como ir ao cinema sem saber que filme vai passar
e estar disposta a ver o filme que for passar

21.11.09

galochas nos cílios

20.11.09

Não tenho paz nem posso fazer guerra
temo e espero, e do ardor ao gelo passo,
e vôo para o céu, e desço à terra
e nada aperto, e a todo o mundo abraço.

Prisão que nem se fecha ou descerra,
nem me retém nem solta o laço;
entre livre e submissa essa alma erra,
nem é morto nem vivo o corpo lasso.

Vejo sem olhos, grito sem ter voz;
e sonho perecer e ajuda imploro;
a mim odeio e a outrem amo após.

Sustento-me de dor e rindo choro;
a morte como a vida enfim deploro:
e neste estado sou, Dama, por vós.



Petrarca em tradução de Jamil Almansur Haddad.

19.11.09

céu

Trocaram as fontes sem sequer eu visse
olho pra cima e me atravessa o tráfego
luzes vermelhas se meus olhos se fecham são cor de flamingo e
os pássaros voam com a autoridade
que passeio pelo príncipe real
vendo vencidos nos bancos
pela pobreza, o amor, a um livro.

#

Eu tenho um beijo preso na garganta.
O mundo deu uma volta e o poema não está pronto.
Fico tão noturna quando é de tarde.

#

Passeio em mim como quem viajasse de trem
e é sempre amanhã que chegamos.

#

Espero a hora de dizer: o jeito que te vejo entrando em mim
como um cavalo derrubando as paredes pelas escadarias.

#

O mar guardado em tuas gavetas.

17.11.09

confidenciação

esse é pro B

tamô seguro usando meia.

16.11.09

s/títuloainda

as milhares de horas de vídeos
gravadas pelos japoneses
nesse minuto viajando no mundo
as câmeras guardadas em Lisboa
chove como se abrissem um lençol
e tentassem arrastar as colinas pro rio
enquanto desenhas
linhas de um mar apavorado
mas grande demais pra fugir.

14.11.09

amor

se quem puder ser for o que será?

*

um modo de cruzar os braços sobre minhas cinturas foi daí o conforto e nem percebes que eu entro pela sala pensando em deitar sobre você escondido numa cadeira de braços altos e todo trançado no próprio corpo entendo que hoje à noite eu sou de ninguém e o modo como diz duas vezes a mesma coisa a segunda com maior dura entonação e a palavra dura menos e é pra se fazer rir ninguém vê graça eu vejo.

*

agora estamos na praia.
como já disse
não quero que morra
em mim a admirável criança

embora ande com um desejo de envelhecer pra me aproximar
fazendo o elogio da retidão
então descubro que a serenidade é um sinal de declínio

13.11.09

talvez você não acredite

como eu evito
mas pra escrever o "cantos de estima"
tive que morrer muito

memória

vontade de ver neve sobre um mar
eu simplesmente ouvi a luz do vento

antónio franco alexandre

cujo nome por si só, já é o meu poema.

cumprir um destino

essa é a 4a casa em que vivo
mas se pensar bem,
em quantos carvalhos já me enrodilhei?
penso justamente em janeiros na bahia
como essa vida quente me define
de ter feito casca
virei a casaca
poucas coisas trouxe
mas não deixei o meu edredon rosa queimado
que me enrolava nas noites de ayahuasca
e agora me esquenta as cólicas e o pavor noturno
pavor noturno de evitar o pavor
clicando
a nova mensagem
tenho medo de abrir
e de ler dizer amor.

*

eu quero um livro de capa branca
depois um livro rosa ferrugem
toda essa meditação
consumiu as horas de leitura
porque eu estava a sonhar
com o futuro de um livro
que ainda não escrevi

*
ficar comigo

*
.

12.11.09

hoje eu vi o marcos

lá na casa da mamãe e do papai

11.11.09

está decretado que voltei a sonhar

*

faço desse blogue também de sonhos um diário.

*

essa noite sonhei que eu estava no sam's club de osasco com a minha mãe e o meu pai me dava um travesseiro novo. era a maior felicidade do mundo, eu abraçava o travesseiro. daí a gente saía de lá e pegava a av. escola politécnica e aquilo ia me dando uma angústia, uma angústia. eu pensava "quero estar em Lisboa". e sentia saudades, assim, violentíssimas. e a angústia virava ansiedade e eu começava a calcular "o que vai ser preciso fazer pra estar em Lisboa de novo?" e era impossível. então senti tanta angústia ao lado do córrego Pirajussara que acordei! abri os olhos já era de manhã cedo pensei "caraleo, onde é que eu sou?", vi minha máquina de escrever, "cacete onde é que eu estou? em que ano, que lugar, que direção?" e a luz de outono entrando nas paredes descascadas desse quarto me disse "ai foi só um sonho ruim" e vi que até onde não sei, continuo querendo estar aqui.

10.11.09

maturação

essa noite sonhei que tentava revisitar a parte da minha casa sempre não aproveitada que só existia em sonhos que eu tinha que havia um sótão onde eu nunca ia e sempre que nele chegava (creio que já escrevi sobre isso) havia a impressão de um desaproveitamento. então hoje sonhei que eu levava algumas pessoas pra conhecerem esse lugar (eram todas minhas desconhecidadas) e o lugar tinha virado uma biblioteca. de repente um rapaz, muito solícito, levava lá pra cima uma televisão. eu ficava bravíssima com ele. e dizia "não é necessário", ao mesmo tempo que tentava esconder minha ira das visitas e, por conta desse gesto, eu o perdoava um pouco.

saíamos de lá e eu estava sozinha com um pé de amora. não tinha nenhuma amora madura mesmo. e toda vez que eu pegava uma elas se enfiavam espinhos muito duros no meu dedo. apareceram umas mulheres e tiravam as amoras que ali tinham e comiam. uma delas olhou pra mim e me disse "essas são boas de um modo diferente". e eu disse "mas então há frutos verdes que se comem?". espetava o dedo, mastigava que diferente!, e era bom.

9.11.09

você tem um canyon escondido?

sabe como é, uma terra que se abre em duas e entre elas voam uns pássaros e nascem umas coisas.
o rio se dizia logo

axolote

vou comprar chocolate
nem tou sozinha
vou alimentá-lo.
eu fui pra Patagônia pequeninha.

a Patagônia cabia num grão-de-arroz.

eu hoje comprei uma Vespa.

e uma dúzia de chaves-de-fenda.

vou montar a minha cadeira vermelha.

que herói que se preza além da capa e da máquina de escrever encarnada tem a world famous cadeira vermelha de 14 euros do ikea.
o dormente morava dentro do rio e o rio se dizia lago olho bem fundo de boiar em marrom no centro da água meu ver de terra redor redor em cavei um umbigo pelo qual eu mirava você era a discordância de nuvem você na ausência até que é isso o que era você era eu e não me bastava a história de sempre da solidão apaixonada da paixão pelo vento que esfria/ a paixão e /ferve a vontade de deitar sobre mim, coração.

*

não me eram suficientes os dígitos, a música, a salvação.

eu queria morrer, dizer-te pulando de rua não desafie meu super-herói interior, que ele derruba montra/vitrine não fica nunca abandonado, meu coração é tão povoado!, vem meu bem, ver a vila que eu fiz em você.

*

depois me contaram que o modo de perder um homem era dizer "vem cá" puxei as cobertas e me virei pra lá.

*

tem gente que bebe.
de dentro da xícara de café esperava-se um líquido veio que não vou sugerir a quebra de linha e voou do bule fervente o som de uma asa de gaivota se abrindo era uma criatura que em mim renascia de dizer criatura como se ainda acreditasse em monstros indefiníveis eu que vim de criança sendo uma imaginação tantas vezes soterrada tantas vezes reles tantas vezes dormente tantas vozes

8.11.09

é melhor deflagrar a guerra do que
prender a respiração pra sempre

*911

-alou, AFOGUEI

5.11.09

uma crônica que me aconteceu mesmo ontem e eu resolvi anotar

eu aqui também moro em frente dum supermercado. e é importante dizer "super" porque se não em Portugal "mercado" é o que no Brasil se chama de "feira". pois então, fazia uma semana que eu não ia ao super. estava com as costas doendo e mal humorada. cheia de tristeza, de saudade, de dúvida e medo. e, principalmente, de saco cheio de tantos afazeres domésticos que, pensava eu, me emperravam o desejo de ir ao cinema, estudar, começar uma nova pesquisa na biblioteca, sei lá, andar até um miradouro qualquer e olhar o Tejo indo pro mar. mas fui lá, leite, ovos, espinafre, arroz, essas coisas. evitei o chocolate que sabia que melhoria meu humor, mas depois? é um respeito. que vontade de comer goiaba.

tava meditando que de novo comprava o trident tropical mix já no caixa quando um senhor de uns 90 anos se aproximou vindo da rua de bengala, naquele ritmo de passo a passo, vestido de fato xadrex em marrom, velocidade de 1/4 de metro por minuto e falou baixinho com o caixa, que nem pra ele olhou. carregava uma nota fiscal e uma embalagem de chocolate em pó fechada. passaram as minhas coisas na frente dele, os códigos de barra apitando e o senhor cabisbaixo esperando. quando terminaram com aquilo tudo o senhor finalmente se aproximou do menino do caixa e disse o que lhe acontecia

que ele ao chegar em casa conferindo a nota tinha percebido que aquele pacote de chocolate não tinha sido pago e que ele estava lá pra resolver isso. o gajo do caixa se enrijesceu todo daquela demonstração e muito duro sem nem olhar pra idade do homem nem nada passou o chocolate no apitador de barras e disse

-são 89 céntimos.

o senhor abriu o moedeiro com as mãos tremendo e moeda a moeda pagou. eu me retirei para casa enquanto a compra se finalizava. pensei? não. só me doí.

**
o que é que me doeu?


****.

1.11.09

espero que novembro amanheça bem

nenhuma esperança é feita de si/ tudo está para sempre acabado / redigo: que me queiram mal.

se todo o desvio é em si caminho, labuto na divergência: escrevo.

não mais.
não mais.
não mais.

e sobretudo no ato de escrever é que digo: escrevo.
e tomaste a minha pena a minha voz e agora a minha compreensão.

admiro muito minhas calças cor de camelo.

comprime o ritual nessa falta de mim.

e nunca estive tão só.

creio que poderia atirar-me ao rio e ir parar no Brasil.

se assim o fizesse, não seria feliz. mas que importa a felicidade?

é como um monte de musgo que um cavalo pisa indiferente se aquilo fosse bosta.

e eu tento falar contigo como outros falariam mas não consigo e tento te convencer como convenceria a outros e não consigo e me vejo mais uma vez na mesma cena de sempre só que dessa vez estás vestido de azul enquanto antes preferias o cinza, amor.

quem é que me vaga e vagueia?

não sinto nada, mamãe.

descubro à meia-noite de ontem que não te quero mais.

descubro é: meia-noite, és um gênio, e não tens um botão de play/ stop.

pela sabedoria não posso te odiar, nem chamar a ti de boneco de gelo.

se me perguntassem o que aconteceu eu responderia com "e azul". não diria outra coisa, não direi. podem dizer que vivo meu avesso. podem dizer que esperam das passagens das ruas coisas melhores pra mim e pra você, porque em fato tem todos medo de encarar a vida como ela é. o tempo.

no entanto, tu, encaras. e eu te olho como a um mamute num zoológico onde todos enlouqueceram achando que são macacos cheios de depressão no cu.

descubro-te rindo da crueza e com crueldade das coisas como ela são. odeio-te?

gostaria de gostar da idéia de levar minha mão na tua cara num tapa.

não sei o quanto silêncio há num sol escancarado. e quanto acreditar que as palavras vencem um corpo. ao meu elas sempre venceram. estou mais uma vez só com elas.

será essa a minha sina para sempre, estar comigo e com as palavras e te juro, que não me lamento, nem arrependo e nem gostaria que fosse diferente.

gostava de voltar a essa sinceridade mais vezes.

mas por hora me calo, espero o inverno passar.

não sei se a nossa nobreza nos consola ou piora. afinal, não somos deuses.

talvez se deuses fossemos poderia eu sublimar em criar estrelas.

mas, no fim, até posso. faço versos: cartas de adeus que dizem: fico mais um enquanto.

30.10.09

horóscopo te inibe a felicidade?

por exemplo: "dia difícil, cuidado com as palavras" e o sujeito cujo leitor apaixonado deve guardar a declaração pro dia mais adeqüado? é mercúrio, saturno, pôvo ê,

*




*

XII

Temendo deste agosto o fogo e o vento
Caminho junto às cercas, cuidadosa
Na tarde de queimadas, tarde cega.
Há um velho mourão enegrecido de queimadas antigas.
E ali reencontro o louco:
-Temendo os teus limites, Samsara esvaecida?
Por que não deixas o fogo onividente
Lamber o corpo e a escrita? E por que não arder
Casando o Onisciente à tua vida?



eu dei de presente pro B
esse da
Hilda Hilst, n'o "Via Espessa" dentro Do desejo


*

todo meu amor.

29.10.09

sim, o título desse blogue vem de

"porque hoje eu vou fazer
ao meu jeito eu vou fazer
um samba sobre o infinito"

e eu ouvia e sempre estava certa de que ele ia salvar o verso cantando "movimento"

o que, pois, esgrimo em fazer.

beijos,

26.10.09

já não vivemos mais

já não vivemos mais na mesma cidade

de lá você não era
e eu tinha crescido em outra parte

*

sonho contigo
tem um bidê
fazemos amor
e me ensinas as coisas que a gente fazia questão de não ver

*

de todo modo cada vez mais apartada e convicta
do teu sexo

*

POEMA DE FINADOS

talvez a saída da cidade combine melhor com o teu drama
assim como Lisboa rima com o meu senso de me iludir

*

linda, sobretudo linda

*


POEMA DE FINADOS

e todo o medo do silêncio
da tua concha de amar e usar
óculos escuros pra mais chorar

-sempre um pouco impressionada com a minha cara limpa-

sobretudo por si mesma consumida
como as flores amarelas do teu planeta.
cemitério, ciúme, sitiado ardor.

*

POEMA DE FINADOS

que já tenho aprendido a conviver a ferocidade da tua delicadeza.

* * *

25.10.09

30

Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.



António Franco Alexandre
in: Duende

23.10.09

I

quando se fez um som: branco, parecia que alguém o calculava. entre precisão e desdém, um sopro concentrado no ouvido de alguém, a dizeres: quero-te, meu bem. e uma dobra de onda, vaga, esse desejo, meu cão, ao pé de presente, agora lambe suas mãos entre os dedos, salina viagem.

para atravessar o silêncio era preciso estar nele. ver as roupas que de molhadas se encheram de areia grudada e pensar: nada dizem essas minhas roupas longe da cidade? habitei dia a dia dentro delas, habitei dentro delas, se não me eram incógnitas, era eu a dúvida?

mas se eu sabia que te desejo assim como a uma casa, um prato de comida, um gato, o Museu del Prado, e um poema, não era isso já saber bastante, destino? eu que podia me satisfazer com um espelho e um destino de ninguém agora já não posso. escuta, fecha os olhos que eu estou aí. construo, reconstruo, adivinha se gosta de mim? mas desde que te conheço todo entulho, resto, nunca vai dar no mar.

espécie de salvação da espécie: um projeto: salvar o oceano.

22.10.09

eu queria uma espécie alienígena que tivesse tomado o meu itunes e colocado a tag "de amor para essa hora", e o play nessa especificidade desse a mim (e a todos, aqueles, ligados_ ) a sensação - aquela - que é um sorriso junto, de coragem

embora coragem seja uma palavra forte demais.

forte?
nobre?

na última vez que nos vimos eu disse que toda coragem é cheia de estupidez. um valente é um alguém que deu tão não certo, que acertou.

meu corpo tá malvado esses últimos dias comigo.
tô num mal humor cheio de boas intenções.
 

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